domingo, 7 de junho de 2015

Na década de 1990, qualquer debate político-econômico sempre envolvia uma "palavra mágica": globalização.
O termo define as políticas seguidas por países e empresas dentro de uma realidade em que as multinacionais podiam mudar de país num piscar de olhos e o dinheiro cruzava fronteiras com a velocidade da internet.
Hoje, o cenário é outro. O comércio mundial e os investimentos internacionais sofrem uma retração. Nas principais economias, florescem discursos e práticas anti-imigração, e a Rodada de Doha, como são conhecidas as negociações promovidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em prol da liberalização de negócios, já dura 13 anos, sem ser concluída.
Simon Evenett, especialista em comércio mundial da Universidade de Saint Gallen, na Suíça, defende que houve uma inegável mudança na tendência de globalização desde a crise financeira global de 2008.
"Isso afeta mais alguns setores do que outros, mas é evidente no comércio internacional e no setor financeiro, um símbolo da globalização", afirma.
E este novo momento já tem inclusive um nome: "desglobalização".
Portas fechadas
Reuters
Com uma economia global abalada, o impacto sobre o comércio tem sido claro
Na reunião dos países do G20 em 2009 em Londres, no Reino Unido, o grupo das maiores economias do mundo se comprometeu a "evitar a repetição de erros históricos", conscientes do perigo que a recessão mundial representava para a globalização.
Foi uma referência clara a outra grande crise econômico-financeira dos últimos 90 anos, vivida na década de 30, quando países lançaram mão de políticas ultraprotecionistas, que, segundo seus críticos, agravaram ainda mais aqueles tempos difíceis.
O exemplo mais claro foi a lei Smoot-Hawley, nos Estados Unidos, que elevou impostos de importação para mais de 20 mil tipos de produtos estrangeiros.
"Ainda não foi adotada agora uma medida tão óbvia quanto esta, mas os governos vêm aplicando de forma discreta toda sorte de mecanismos para proteger sua produção nacional", destaca Evenett.
Com a economia global abalada, o impacto sobre o comércio tem sido claro.
Se nos anos anteriores a 2008 cada aumento de 1% no PIB global era acompanhado por um aumento de 2% no comércio mundial, hoje esta proporção é de um para um, nos melhores casos.
Em janeiro, o comércio mundial caiu 1,6% e em fevereiro, 0,9%.
"Isso afeta os setores exportadores, que deixam de ser um motor de crescimento. Impacta ainda a criação de emprego e o nível dos salários, porque é nestes setores que estão os postos mais bem remunerados", explica Evenett.
Política de imigração
Getty
Em todo o mundo, cresce a polêmica em torno da imigração
As barreiras não são comerciais. O mal estar econômico após 2008 tem alterado o cenário político.
No centro do debate de muitos países desenvolvidos, está o mundo multicultural gerado pelos fluxos migratórios, outro símbolo da globalização.
Ao mesmo tempo, movimentos anti-imigração, como a Frente Nacional, na França, e o UKIP, no Reino Unido, vêm ganhando peso.
Um ponto-chave do futuro referendo do Reino Unido sobre sua permanência na União Europeia diz respeito a uma mudança defendida pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, em um princípio sagrado do bloco: a liberdade de circulação dos seus cidadãos entre os países-membros.
Ann Pettifor, da consultoria Prime Economics, avalia que o surgimento do partido Syriza, na Grécia, e dos nacionalistas do SNP, na Escócia, também são simbólicos deste questionamento da globalização.
"Também vimos isso na crise de 1930. As pessoas buscam refúgio em diferentes grupos políticos diante da instabilidade dos mercados e da incapacidade do governo de reagir", destaca Pettifor.
Fluxo financeiro
Getty
A globalização do sistema bancário também desacelerou
Outro ícone do mundo globalizado é o livre fluxo financeiro.
Com milhões de transações sendo processadas por segundo pela internet nos dias de hoje, é fácil se esquecer de que, até o fim dos anos 1970, havia um forte controle sobre a movimentação de capital.
Os britânicos tinham, por exemplo, um limite de 50 libras (R$ 240) para levarem em viagens ao exterior.
Tanto a direita quanto a esquerda costumam não se lembrar que o pilar desta política foram os acordos de Bretton Woods, promovidos pelos Estados Unidos e o Reino Unido e que criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI), como o organismo que supervisionaria o mundo criado no pós-guerra.
Hoje, não se vê um retorno àquele controle rígido, mas um comunicado do Banco Central britânico destaca que os bancos estão evitando realizar empréstimos internacionais.
'Desglobalização'
Em um recente discurso, Kristin Forbes, integrante do Comitê de Política Monetária da entidade, afirmou que há uma "contração massiva dos fluxos financeiros globais", que qualificou como "desglobalização bancária".
Entre os exemplos deste fenômeno, estão o encerramento de operações bancárias em mais de 20 países da terceira maior instituição do tipo no mundo, o HSBC.
Muitos de seus empregados viveram em primeira-mão os efeitos desta retração da globalização de grandes bancos: entre 2011 e 2013, foram fechados mais de 30 mil postos de trabalho.
Este caminho também foi percorrido por outro gigante do setor, o Citi, que reduziu sua presença global para quase a metade de antes, passando a operar apenas em 24 países.
"Mesmo com a redução de empréstimos internacionais por bancos, para aumentar suas reservas, a arquitetura financeira mundial não se estabilizou, como mostra o aumento de US$ 57 bilhões na dívida global desde a crise", diz Pettifor.
AP
O banco HSBC reduziu presença global, com milhares de demissões
Pausa ou retração?
A pergunta é se estas tendências comerciais, financeiras e políticas marcam uma nova era ou se são um fenômeno transitório.
Nos últimos 25 anos, a unificação mundial gerada pela globalização desenhou um novo planeta.
A incorporação plena da China e da Índia - que, juntas, têm cerca de 40% da população do mundo -, bem como do Leste Europeu, são claros sinais do avanço da globalização.
Enquanto a Rodada de Doha pela liberalização segue paralisada, os acordos comerciais têm se multiplicado, com dois destaques: entre os EUA e a União Europeia, que representam 40% da economia mundial, e entre 15 países do Pacífico na Ásia e nas Américas.
A tecnologia também está do lado da globalização, levando mais à ruptura de fronteiras do que a criação de obstáculos.
Em um comunicado recente, o chefe de pesquisas de comércio internacional do banco holandês ING, Raoul Leering, apontou fenômenos econômicos, como a crise na Europa, como a causa da atual desaceleração, mas destacou que a globalização seguirá em frente.
"Não veremos se repetir o 'boom' dos anos 1990 e do princípio deste século, mas a integração econômica prosseguirá. Ainda falta uma integração entre países emergentes, como China, Índia e Filipinas, que têm baixos níveis de investimentos estrangeiros em comparação com os países desenvolvidos", avalia.
"A fragilidade da economia europeia foi um fator desta desaceleração transitória."
Segundo Pettifor, é importante diferenciar a globalização comercial e financeira.
"Não se pode subestimar o poder das forças que têm contribuído para a globalização. Mas é preciso distinguir a globalização comercial, que traz benefícios, da financeira, que gera instabilidade e uma forte reação social e política, que seguirá presente se não for controlada sua volatilidade."
Fonte: BBC

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Os segredos de quem fala dezenas de idiomas

Em uma tarde ensolarada em Berlim, Tim Keeley e Daniel Krasa conversam sem parar. Começam em alemão, mas logo passam ao hindi, ao nepalês, ao polonês, ao croata, ao mandarim e ao tailandês. O papo flui como se não houvesse barreiras entre as línguas. Juntos, os dois são capazes de falar mais de 20 idiomas.
No mesmo endereço, encontro outros indivíduos como eles. Alguns se reúnem em grupos de três e parecem brincar de interpretar duas línguas ao mesmo tempo.
Para mim, tudo isso seria a receita para uma bela dor de cabeça, mas para eles, a situação é bastante comum: estamos todos em Berlim para o Polyglot Gathering, um encontro de cerca de 350 pessoas capazes de falar vários idiomas.
Uma grande parcela dos participantes da reunião é de "hiperglotas", que, como Keeley e Krasa, dominam pelo menos dez línguas.
Um dos linguistas mais experientes que conheci em Berlim, Richard Simcott, lidera uma equipe de poliglotas em uma empresa chamada eModeration – e sabe falar 30 idiomas.
E eu, com meu inglês nativo, um parco domínio do italiano e um dinamarquês rudimentar, estou aqui para descobrir os segredos desses indivíduos.

Demência tardia

Estudos mostram que o aprendizado de um novo idioma é a melhor 'ginástica mental'

Muitos de nós acreditamos que aprender uma nova língua é um esforço hercúleo. De fato, temos muitos sistemas diferentes de memória, e dominar um idioma requer todos eles.
Há a memória processual, que programa os músculos para os pequenos movimentos capazes de gerar a pronúncia e o sotaque, e a memória declarativa, que é a habilidade de lembrar fatos (ou seja, pelo menos 10 mil novas palavras se você quiser ter uma fluência quase nativa, sem contar a gramática).
Além disso, essas palavras e estruturas têm que estar na ponta da língua – a não ser que você queira soar como um robô. Isso é programado pelas memórias "implícita" e "explícita".
Tanto esforço mental tem suas recompensas. Para começar, trata-se da melhor "ginástica" que você pode dar a seu cérebro: vários estudos científicos já mostraram que falar muitos idiomas pode melhorar a atenção e a memória, formando uma "reserva cognitiva" que atrasa o desenvolvimento da demência.
Ao analisar a experiência de imigrantes, Ellen Bialystok, da Universidade York, no Canadá, descobriu que falar dois idiomas chegou a adiar em cinco anos os casos de demência. Os que sabiam três línguas foram diagnosticados 6,4 anos depois de indivíduos monoglotas, enquanto aqueles com fluência em quatro ou mais idiomas ficaram até nove anos sem sofrer da doença.

Nunca é tarde

'Hiperglotas' em geral são mais abertos a novas culturas e a novas amizades

Mas até pouco tempo atrás, muitos neurocientistas sugeriam que a maioria de nós teria passado do melhor período para obter fluência em um novo idioma, que, segundo eles, seria a infância.
Ainda assim, a pesquisa de Bialystok indica que essa percepção pode ter sido exagerada. Ela descobriu que nossa capacidade de aprendizado apresenta apenas uma suave queda conforme envelhecemos.
Aliás, muitos dos hiperglotas que conheci em Berlim adquiriram o domínio de alguns idiomas em um estágio mais avançado da vida. Keeley, por exemplo, passou a infância na Flórida e só na idade adulta começou a viajar o mundo e aprender outras línguas, chegando hoje a uma fluência em 20 delas.
No entanto, duas perguntas ainda precisam ser feitas: como esses hiperglotas conseguem aprender tantos idiomas? E será que podemos ser como eles?
Bom, é verdade que muitos deles são bem mais motivados do que a maioria de nós; outros também tiveram a vantagem de mudar de um país, aprendendo uma nova língua praticamente na marra.
Reinventar é preciso
Keeley, que está escrevendo um livro sobre os "fatores sociais, psicológicos e afetivos para o aprendizado de vários idiomas", acredita que não se trata apenas de uma questão de inteligência. "Ter uma habilidade analítica torna o processo mais rápido, mas não é fundamental", afirma.
Para ele, aprender uma nova língua faz uma pessoa reinventar a percepção que tem de si mesma – e os melhores linguistas são particularmente bons em assumir novas identidades. "Você se torna um camaleão", diz ele.
Psicólogos há tempos sabem que as palavras que entoamos estão associadas à nossa identidade – cada língua é relacionada a normas culturais que afetam o comportamento de quem as fala. E muitos estudos descobriram que os poliglotas geralmente adotam comportamentos diferentes dependendo do idioma que falam.
Segundo Keeley, resistir ao processo de reinvenção pode atrapalhar o aprendizado. Hoje professor de administração transcultural na Universidade de Kyushu Sangyo (Japão), ele recentemente fez uma pesquisa com chineses que estavam aprendendo japonês para testar a "permeabilidade" de suas personalidades. Como suspeitava, as pessoas que mais pontuaram em quesitos como adaptabilidade e percepção dos outros tinham muito mais fluência no novo idioma.
Apoderando-se da língua
Como isso acontece? Os cientistas já sabem que quando uma pessoa se identifica com outra, ela tende a imitá-la, um processo que poderia melhorar o aprendizado de uma língua.
Mas a identidade adotada, e as memórias associadas, também podem evitar que você a confunda com seu idioma nativo, construindo barreiras neurais entre as línguas. "Isso mostra que o que conta não é só o tempo que você passa aprendendo ou usando os idiomas. A qualidade desse tempo é fundamental", explica Keeley.
De todos os poliglotas, o ator americano Michael Levi Harris é quem pode melhor demonstrar esses princípios. Ele fala fluentemente dez idiomas e um conhecimento intermediário de outros 12.
Para Harris, qualquer pessoa pode aprender a adotar uma nova "máscara" cultural, e tentar imitar o som de outras línguas é um primeiro passo. A segunda etapa é não ter vergonha de produzir alguns ruídos "estranhos" que alguns idiomas têm, como os sons guturais do árabe, por exemplo.
"É uma maneira de se apoderar da língua, que é o que nós atores fazemos para convencermos a plateia de que aqueles diálogos são naturais", explica. "Quando você se apodera do idioma, fala com mais confiança e estabelece uma relação com as outras pessoas".
Os linguistas também acreditam que praticar um pouco e com frequência ajuda muito no aprendizado – nem que seja por 15 minutos, quatro vezes por dia. "A analogia com o exercício físico funciona muito bem", diz Alex Rawlings, que criou uma série de oficinas poliglotas para ensinar suas técnicas. E não é preciso ir muito fundo: ouvir uma música ou praticar um diálogo naquela língua já ajuda.
Todos os hiperglotas que conheci são genuinamente entusiasmados com os benefícios que esse talento trouxe a eles – inclusive a chance de fazer amigos e conexões e até transpor barreiras culturais.
Como disse a organizadora do encontro em Berlim, Judith Meyer, ela viu russos conversando com ucranianos e palestinos trocando ideias com israelenses. "Aprender uma nova língua realmente abre a porta para um novo mundo", define.
Fonte: BBC

Programa para fazer estágio remunerado no Exterior recebe inscrições

Muita gente sonha em fazer estágio no Exterior e não sabe nem por onde começar a procurar. Pois fique sabendo que diversas vagas para fazer estágio remunerado no Exterior estão abertas e só esperando a sua inscrição. É o programa Talentos Globais, que oferece estágio em diversos países nas áreas de Gestão, Engenharia, Relações Internacionais, Tecnologia e Educação. É o programa perfeito para quem já domina o inglês (ou o espanhol) e quer turbinar o currículo com uma experiência internacional em uma área específica e sem gastar todas as economias de uma vez.
Só na área de TI, por exemplo, o programa oferece aproximadamente 800 vagas para cursos de TI, em mais de 70 países, entre eles Índia, AlemanhaCanadáPolôniaColômbia, Hungria e Dinamarca. Para poder participar é necessário ser graduando, pós-graduando ou formado há até 2 anos. Ter de 18 a 30 anos de idade, ter inglês ou espanhol avançado (depende do país onde você quer trabalhar).
Após ser aprovado no processo seletivo para o estágio remunerado no Exterior, os candidatos passam a ser acompanhados por um membro da AIESEC. Esse acompanhamento se dá desde a busca de vagas no sistema até a formulação do currículo em inglês, a preparação para entrevistas, processo de obtenção do visto, seguro saúde e preparação cultural para o país de destino. Na chegada ao país onde o intercâmbio será realizado, o intercambista é recepcionado pelos membros locais. Há uma taxa de manutenção do programa para poder fazer o intercâmbio, mas por ser uma organização sem fins lucrativos, o custo acaba sendo bem em conta. Fora isso, custos de passagem, passaporte, visto e seguro saúde são de responsabilidade do intercambista.
Se interessou e você quer fazer estágio no exterior, inscreva-se e sabe o que é mais legal? O processo de seleção é permanente, então, as inscrições não encerram.
bolsa de mestrado na china schwarzman scholarsO Programa Schwarzman Scholars está com inscrições abertas para bolsas de mestrado na China.  A fundação tem a intenção de formar líderes “para o sucesso em um mundo onde a China desempenha um importante papel global”. A bolsa cobre todos os custos de um ano de mestrado na Universidade de Tsinghua – uma das mais prestigiadas universidades da China. Os interessados devem indicar em qual área desejam fazer o mestrado. As áreas disponíveis são Economia e Administração, Políticas Públicas ou Estudos Internacionais. As inscrições podem ser feitas pela internet até 1 de outubro de 2015.
Para poder concorrer, é necessário ter entre 18 e 29 anos (até 30 de junho de 2016), ter graduação completa (até julho de 2016) e possuir proficiência em inglês comprovada por Toefl, Ielts ou PET. Além disso, os candidatos devem enviar três cartas de recomendação, três cartas de motivação com diferentes temas (veja os temas aqui), histórico escolar completo e currículo. Não é necessário ter formação em uma das áreas em que o curso é oferecido. Candidatos com formação em qualquer área podem se inscrever. O curso será todo em inglês.
A bolsa cobre os custos do mestrado, transporte, passagem até a China, seguro-saúde, moradia, um laptop, um smartphone, uma viagem de estudos na China e ainda e inclui uma quantia mensal. Ou seja, não dá para perder! As inscrições podem ser feitas no site da fundação e vão até 1 de outubro de 2015. Os candidatos selecionados iniciarão o curso na China em julho de 2016. A seleção busca que 45% dos estudantes sejam dos Estados Unidos,  20% da China e 35% de outros países.
Ainda tem dúvidas?
Veja mais oportunidades de estudar na China

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?


Por que os intelectuais sistematicamente odeiam o capitalismo?  Foi essa pergunta que Bertrand de Jouvenel (1903-1987) fez a si próprio em seu artigo Os intelectuais europeus e o capitalismo.
Esta postura, na realidade, sempre foi uma constante ao longo da história.  Desde a Grécia antiga, os intelectuais mais distintos — começando por Sócrates, passando por Platão e incluindo o próprio Aristóteles — viam com receio e desconfiança tudo o que envolvia atividades mercantis, empresariais, artesanais ou comerciais.
E, atualmente, não tenham nenhuma dúvida: desde atores e atrizes de cinema e televisão extremamente bem remunerados até intelectuais e escritores de renome mundial, que colocam seu labor criativo em obras literárias — todos são completamente contrários à economia de mercado e ao capitalismo.  Eles são contra o processo espontâneo e de interações voluntárias que ocorre de mercado.  Eles querem controlar o resultado destas interações.  Eles são socialistas.  Eles são de esquerda.  Por que é assim?
Vocês, futuros empreendedores, têm de entender isso e já irem se acostumando.  Amanhã, quando estiverem no mercado, gerenciando suas próprias empresas, vocês sentirão uma incompreensão diária e contínua, um genuíno desprezo dirigido a vocês por toda a chamada intelligentsia, a elite intelectual, aquele grupo de intelectuais que formam uma vanguarda.  Todos estarão contra vocês.
"Por que razão eles agem assim?", perguntou-se Bertrand de Jouvenel, que em seguida pôs-se a escrever um artigo explicando as razões pelas quais os intelectuais — no geral e salvo poucas e honrosas exceções — são sempre contrários ao processo de cooperação social que ocorre no mercado.
Eis as três razões básicas fornecidas por de Jouvenel.
Primeira, o desconhecimento.  Mais especificamente, o desconhecimento teórico de como funcionam os processos de mercado.  Como bem explicou Hayek, a ordem social empreendedorial é a mais complexa que existe no universo.  Qualquer pessoa que queira entender minimamente como funciona o processo de mercado deve se dedicar a várias horas de leituras diárias, e mesmo assim, do ponto de vista analítico, conseguirá entender apenas uma ínfima parte das leis que realmente governam os processos de interação espontânea que ocorrem no mercado.  Este trabalho deliberado de análise para se compreender como funciona o processo espontâneo de mercado — o qual só a teoria econômica pode proporcionar — desgraçadamente está completamente ausente da rotina da maior parte dos intelectuais.
Intelectuais normalmente são egocêntricos e tendem a se dar muito importância; eles genuinamente creem que são estudiosos profundos dos assuntos sociais.  Porém, a maioria é profundamente ignorante em relação a tudo o que diz respeito à ciência econômica.
A segunda razão, a soberba. Mais especificamente, a soberba do falso racionalista.  O intelectual genuinamente acredita que é mais culto e que sabe muito mais do que o resto de seus concidadãos, seja porque fez vários cursos universitários ou porque se vê como uma pessoa refinada que leu muitos livros ou porque participa de muitas conferências ou porque já recebeu alguns prêmios.  Em suma, ele se crê uma pessoa mais inteligente e muito mais preparada do que o restante da humanidade.  Por agirem assim, tendem a cair no pecado fatal da arrogância ou da soberba com muita facilidade.
Chegam, inclusive, ao ponto de pensar que sabem mais do que nós mesmos sobre o que devemos fazer e como devemos agir.  Creem genuinamente que estão legitimados a decidir o que temos de fazer.  Riem dos cidadãos de ideias mais simplórias e mais práticas.  É uma ofensa à sua fina sensibilidade assistir à televisão.  Abominam anúncios comerciais.  De alguma forma se escandalizam com a falta de cultura (na concepção deles) de toda a população.  E, de seus pedestais, se colocam a pontificar e a criticar tudo o que fazemos porque se creem moral e intelectualmente acima de tudo e todos. 
E, no entanto, como dito, eles sabem muito pouco sobre o mundo real.  E isso é um perigo.  Por trás de cada intelectual há um ditador em potencial.  Qualquer descuido da sociedade e tais pessoas cairão na tentação de se arrogarem a si próprias plenos poderes políticos para impor a toda a população seus peculiares pontos de vista, os quais eles, os intelectuais, consideram ser os melhores, os mais refinados e os mais cultos.
É justamente por causa desta ignorância, desta arrogância fatal de pensar que sabem mais do que nós todos, que são mais cultos e refinados, que não devemos estranhar o fato de que, por trás de cada grande ditador da história, por trás de cada Hitler e Stalin, sempre houve um corte de intelectuais aduladores que se apressaram e se esforçaram para lhes conferir base e legitimidade do ponto de vista ideológico, cultural e filosófico.
E a terceira e extremamente importante razão, o ressentimento e a inveja.  O intelectual é geralmente uma pessoa profundamente ressentida.  O intelectual se encontra em uma situação de mercado muito incômoda: na maior parte das circunstâncias, ele percebe que o valor de mercado que ele gera ao processo produtivo da economia é bastante pequeno.  Apenas pense nisso: você estudou durante vários anos, passou vários maus bocados, teve de fazer o grande sacrifício de emigrar para Paris, passou boa parte da sua vida pintando quadros aos quais poucas pessoas dão valor e ainda menos pessoas se dispõem a comprá-los.  Você se torna um ressentido.  Há algo de muito podre na sociedade capitalista quando as pessoas não valorizam como deve os seus esforços, os seus belos quadros, os seus profundos poemas, os seus refinados artigos e seus geniais romances. 
Mesmo aqueles intelectuais que conseguem obter sucesso e prestígio no mercado capitalista nunca estão satisfeitos com o que lhes pagam.  O raciocínio é sempre o mesmo: "Levando em conta tudo o que faço como intelectual, sobretudo levando em conta toda a miséria moral que me rodeia, meu trabalho e meu esforço não são devidamente reconhecidos e remunerados.  Não posso aceitar, como intelectual de prestígio que sou, que um ignorante, um parvo, um inculto empresário ganhe 10 ou 100 vezes mais do que eu simplesmente por estar vendendo qualquer coisa absurda, como carne bovina, sapatos ou barbeadores em um mercado voltado para satisfazer os desejos artificiais das massas incultas."
"Essa é uma sociedade injusta", prossegue o intelectual.  "A nós intelectuais não é pago o que valemos, ao passo que qualquer ignóbil que se dedica a produzir algo demandado pelas massas incultas ganha 100 ou 200 vezes mais do que eu".  Ressentimento e inveja.
Segundo Bertrand de Jouvenel,
O mundo dos negócios é, para o intelectual, um mundo de valores falsos, de motivações vis, de recompensas injustas e mal direcionadas . . . para ele, o prejuízo é resultado natural da dedicação a algo superior, algo que deve ser feito, ao passo que o lucro representa apenas uma submissão às opiniões das massas.
[...]
Enquanto o homem de negócios tem de dizer que "O cliente sempre tem razão", nenhum intelectual aceita este modo de pensar.
E prossegue de Jouvenel:
Dentre todos os bens que são vendidos em busca do lucro, quantos podemos definir resolutamente como sendo prejudiciais?  Por acaso não são muito mais numerosas as ideias prejudiciais que nós, intelectuais, defendemos e avançamos?
Conclusão
Somos humanos, meus caros.  Se ao ressentimento e à inveja acrescentamos a soberba e a ignorância, não há por que estranhar que a corte de homens e mulheres do cinema, da televisão, da literatura e das universidades — considerando as possíveis exceções — sempre atue de maneira cega, obtusa e tendenciosa em relação ao processo empreendedorial de mercado, que seja profundamente anticapitalista e sempre se apresente como porta-voz do socialismo, do controle do modo de vida da população e da redistribuição de renda.


Jesús Huerta de Soto , professor de economia da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, é o principal economista austríaco da Espanha. Autor, tradutor, editor e professor, ele também é um dos mais ativos embaixadores do capitalismo libertário ao redor do mundo. Ele é o autor de A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade EmpresarialSocialismo, cálculo econômico e função empresarial e da monumental obra Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Brasil fica mais perto de entrar para a OCDE

O Brasil dará, na terça-feira, 2, um importante passo para uma eventual entrada na Organização para o Desenvolvimento Econômico e Social (OCDE).

Após uma negociação-relâmpago para os padrões diplomáticos, o País assinará um acordo em Paris para aprofundar o relacionamento com a entidade, que reúne as principais economias ricas do mundo.
Isso abrirá caminho para uma futura adesão formal ao organismo. Um dos argumentos de quem apoia a iniciativa é que a aproximação ajudará no crescimento econômico.
Com a presença dos ministros de Relações Exteriores, Mauro Vieira, da Fazenda,Joaquim Levy, e do secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, o Brasil assinará no fim da tarde de terça-feira, 2, durante o fórum anual da entidade, o "Acordo Marco de Cooperação com a OCDE".
O texto que aprofundará o relacionamento começou a ser discutido oficialmente em abril, segundo informou ao Broadcast um integrante do governo que acompanha o tema, mas pediu anonimato.
O documento vai estabelecer a base jurídica para o relacionamento entre o País e a OCDE e prevê, entre outros temas, detalhes sobre como serão feitas futuras contribuições financeiras do governo brasileiro à entidade.
Na esfera econômica e diplomática, os dois meses de debate para o texto final são exaltados pela rapidez.
Para diplomatas, a assinatura do acordo é entendida como o mais importante passo dado pelo Brasil rumo à futura adesão.
Para a equipe econômica, há expectativa de que seja entendida como um movimento "amigável ao mercado".

Grupo dos ricos
Apesar do interesse da OCDE em atrair o Brasil, certas áreas da diplomacia e do governo brasileiro mantinham distância da entidade, entre outras razões, pela leitura de que a organização era um "grupo dos ricos".
Mesmo que com essa cautela, o Brasil se aproximou.
Na educação, por exemplo, o País é o único não membro da OCDE no conselho do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa.
Em Brasília, o principal argumento para a aproximação é que a OCDE está alinhada com o discurso de que o Brasil precisa melhorar o ambiente de negócios.
A entidade estuda e incentiva políticas para o aumento da eficiência dos gastos públicos, da produtividade e da qualificação dos trabalhadores. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Exame

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Justiça dos EUA decide a favor de muçulmana que não foi contratada por questão religiosa

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu nesta segunda-feira (01/05) a favor de Samantha Elauf, uma muçulmana norte-americana que usa hijab (véu tradicional do islã), em um processo contra a Abercrombie & Fitch. Em 2008, a loja de roupas negou dar uma vaga de emprego a Elauf, então com 17 anos, na cidade de Tulsa, Oklahoma.

Samantha hoje é blogueira de moda
Samantha hoje é blogueira de moda

A garota, que buscava uma vaga de vendedora, alega que a decisão da empresa foi baseada em sua identidade religiosa, que supostamente violaria a “política de aparência” imposta pela grife.
No caso — que uniu organizações cristãs, islâmicas e judaicas — os juízes decidiram por 8 a 1 a favor da Comissão Federal de Igualdade de Oportunidade de Trabalho (EEOC, na sigla em inglês), que processou a companhia em nome de Elauf. A sentença da Suprema Corte não foi específica sobre indenizações devidas, e também não menciona se a empresa será obrigada a admiti-la — o caso volta às instâncias originárias, onde serão julgadas essas especificidades.
O que o mais alto tribunal dos EUA estabeleceu foi: Samantha Elauf não precisava, no momento do processo seletivo, ter feito solicitações formais de "acomodação religiosa" com base no Ato de Direitos Civis, de 1964, que proíbe discriminações religiosas. A companhia alega, em sua defesa, que não tinha conhecimento de que Elauf usava veús por motivos religiosos, e não puramente estéticos, o que, então, daria o direito de não admiti-la no emprego.
"A EEOC aplaude a decisão da Suprema Corte afirmando que os empregadores não podem fazer da prática religiosa de um candidato um fator em decisões de emprego", declarou a presidente do órgão, Jenny Yang, em comunicado citado pelo The Guardian.
"Esta decisão protege os direitos dos trabalhadores à igualdade de tratamento no local de trabalho sem ter que sacrificar suas crenças ou práticas religiosas”, acrescentou Yang.
Em um comunicado difundido pelo site Business Insider, a Abercrombie afirmou que “gasta um grande esforço para garantir que seus clientes recebam uma experiência sensorial holística baseada na marca".
Para a grife, “uma modelo que viola a sua política de aparência, vestindo roupas inconsistentes, representa de forma imprecisa a marca, confundindo os consumidores e deixando de cumprir uma função essencial da sua posição, o que gera danos à marca”.
Em análise publicada no Washington Post, o especialista em religião Simran Jeet Singh afirmou que caso de Elauf ilustra uma série de questões importantes da América moderna, servindo como um exemplo histórico sobre a discriminação no local de trabalho e sobre a liberdade religiosa, em uma nação que a cada ano tem mais diversidade de fés.
Fonte: Opera Mundi